Carreira Solo

POR RALPH HOLZMANN

Diário da diferença I: ao Repouso do Pajé

Quando fui jovem, tive um apartamento numa esquina. As ruas se cruzavam e eu assistia os carros dando passagem, os carros que corriam, os pedestres que desviavam, e os pedestres que não notavam.
O sol se punha atrás do prédio da frente, e a sala mergulhava na noite junto com o resto da rua.
O bar embaixo às vezes enchia.
As vozes subiam até as nossas, e as nossas cruzavam os gritos de gol, profanando a filosofia de sempre.
Duas árvores entrelaçavam os galhos e as folhas na minha janela.
Por vezes, os caminhos do vento que se encontravam no cruzamento balançavam o verde das folhas, o sol que se entranhava e as sombras (in)consequentes.
Nos interiores, dizia-se que os vermes históricos se engoliam. Como necessidade era amor, nos aninhávamos e engolíamos os corpos nos encontros. Nas portas, nos corredores, no parapeito. Não havia desprazer mórbido no caos. Havia a inevitabilidade prazerosa do cruzamento da esquina lá fora. Haviam tangências, distâncias e o vento que corria as paredes. Cursos e percursos, ébrios de existência, resistência.
Tantas vezes desistência.
Nos interiores, como lá fora, as sombras e as luzes sempre mudavam de lugar, e o gosto irrevogavelmente amargo do tempo não me queimava a garganta.

as palavras jorram em mim e me emudecem
meu sentimento quer sair pela pele
e não pela boca

quero sê-lo enquanto a boca é pele
superfície, carne, saliva

(via matheusoutlier)

Esquizoreflexo

O mundo ainda salta aos olhos
As luzes, as cores.
As distâncias, os passos.
As sombras, os passantes
As torções
Dos galhos;
E os reflexos
Dos restos.

O mundo ainda é descoberta ao tato,
Como crianças de tudo
Que exploram
Entre o inesperado
As erosões, as diferenças,
E o percurso.

O mundo ainda é lindo de escutar
Já é difícil,
Mas eu ouço
As ondas que vem e vão,
E como escorrem os ritmos,
Das tantas dimensões
Achatadas no porta-retrato,
Resquícios da maré alta.

O mundo cheira.
Serpenteando os aromas que pode,
Irrita, destoa e carrega.
Ainda engasgo com os cheiros fortes.

O mundo não é questão de gosto. 
É gosto.
Está pra além da moldura da janela,
E já existia antes das filosofias.

Enquanto desapareço pra dentro, 
O mundo já me parece distante.
Enquanto apareço, aqui e agora,
Nem tanto.

Esgotamento-Criatura.

Ser criatura difere de “ser”. Cria-dor produz Ser-dor.
Sou um ocupador da terra, antes de “ser” seu limitador. Quem limita, se sujeita. É Sujeito do trauma. E quem meramente é, é ”cada um”.

Mas quem cria, ria! 
E recria a dor,
Que não pulsa “como” nem “igual”
Só pulsa a dor de criar-se a cria e além.
De criar-se força entre forças,
Deslocar paixões entre paixões tresloucadas.

Quem Cria é vento, e quem É, é Pedra. Durante o eterno embate, só um se desgasta.

Carta-Renúncia às Categorias Masculinas

Eu não Sei,
Graças a mim,
Não ao Outro.
Eu desejo ser e possuir
A tua “falta”,
Pois não é falta de nada.
É espaço,
É infinito.
E é seu,
Está além de minha cela histórica,
Mas é tangível como tudo pode ser.
Portanto:
Que falta?
Falta é o Caralho!

Deslocus

Como se por milagre,
Todos os dedos se encaixam entre si.
Os vazios entre eles, libertos e visíveis,
Mais sólidos e sensíveis que qualquer certeza,
Preenchidos de liberdades itinerantes.
Arbítrios que procuram arbítrios,
Elipses repetidas,
Desfazendo o eclipse das diferenças.
Como se por natureza,
Os corpos se produzem aqui,
Outra vez, refeitos de inocência.
E reproduzem tudo que é do tempo agora.
Multiversos provocantes,
Versando sobre pestes e prosas.
Sem causa ou efeito,
Sem travas nas portas,
Celebremos os encontros,
Além das quatro paredes,
Debaixo de tetos quaisquer.

não se arde sem se ver

preocupa-me o percorrer das mãos;
e se é óbvio o acariciar em sua nuca.
se meus cochichos fazem sentido,
e se teus ouvidos se aprumam.
se lhe agoniza o meu afastar,
ou se te alegra teu poder.
preocupam-me, pois, meus flertes,
meus cuidados e meus presentes;
se te são displicentes.
pois, se por um breve descuido,
reconheces em meu discurso
a entranha amarga de que suspeitas;
podre, seca e óbvia
ela rangerá:
estamos todos indiferentes.

Auto-biografia do Escritor Fantasma

É como ouvir o próprio sangue correr nas veias.
A angustia dos fluxos incertos, mas tão certeiros.
Derramá-lo em papel, pelas pontas dos dedos.
Rugir palavras que eu nunca diria, 
Doer um corpo inteiro pra saber porque.
Pra isso, vai tudo que não sei dizer:


“Eu te quero, eu preciso e eu não sei mais de nada.
Eu me ouço, não me entendo, mas agora sei de tudo.
Não sei escrever nem como dizer.
Não aguento perder a fala, não aguento tentar outra vez;
Não me torne distante, não me afaste de mim.
Eu sei que eu posso, eu sei que sou fraco.
Sei que devo me abandonar a qualquer momento,
Viver uma farsa, viver outros dias.
Não quero.
Me devolva pra mim.
Escuta os gritos das minhas confusões;
A água verter salgada, nascente dos nossos rios.
Escuta os socos na parede que eu ainda não dei,
E cede um pouco essa mania de concreto.”

Apesar das pontuações,
Não as calo, tão burras e estúpidas
Tão escrotas e cansadas, palavras vazias,
Pois as tenho por último.

Por enquanto. 

Para Bernardina

De braços abertos, o Cristo parecia um convite ao vento.  Algumas nuvens carregadas já confundiam o horizonte no lusco-fusco. Seu Geraldo respirou os ares rápidos e sentiu cada centímetro do corpo vivo regozijar-se com os resvalos sutis. Olhou as próprias mãos, bagunçou os próprios cabelos. Fazia frio, como raramente se fazia no Rio de Janeiro. Umas últimas crianças tiravam foto com os pais e riam dos pássaros cruzando o ar. Poucas pessoas haviam subido naquele domingo. Não por acaso, havia alegria na solidão de Seu Geraldo, que contemplava a cidade esmaecida já há alguns minutos. Podia ver algumas luzes por entre as massas de nuvens e o anoitecer já se fazia claro. Não quis perder muito mais tempo

Assim, já contente, ajoelhou-se e rezou por alguns minutos. A família já sumira, e ele pode sentir o silêncio que os sons distantes sussurravam no pé de seu ouvido. Quando acabou, fez o sinal da cruz e descalçou os sapatos. De seu bolso, retirou a carta que escrevera de última hora na noite anterior, e pousou-a,  amassada,  em cima do par de mocassins marrom-claros.  Escalou cuidadosamente o murinho e ficou em pé, paralelo à enorme estátua inerte atrás dele. Sentia o equilíbrio ceder, como se todas as vontades pudessem ser carregadas e dispersadas nas correntes frescas.
Abriu os braços, fechou os olhos e tomou uma última golfada de ar antes de soltar-se na imensidão das copas verdes.

Quem chegasse perto, ouviria o envelope cantar:

 “Para Bernardina:
Todos os amores intensos serão sempre intensos:
Independente das razões, é enérgico qualquer gesto de amor.
E entre tantos tons quentes, eu amo muito todas as nossas crises.;
Todos os nossos desgastes e todos os nossos calos.
E os amo tanto que este nosso último sofrer escreve a carta em que derramas lágrimas.
Não te surpreende que eu mencione uma crise que desconhece, pois sempre foi assim:
São minhas as trapaças, são minhas as armadilhas.
Minhas, pois amo a mim como amo a ti.
Minhas, pois tenho ciúmes.
Só não seus.
Tenho de minhas arestas, de meus padrões;
Dos meus bom-dias e dos meus suspiros.
Ou do seu entrelaçar com as minhas mãos.
Não suporto meus ares bobos, nem minhas despretensões de ouvinte,
Nem meu carinho sincero, nem minhas palavras macias.
Pois nunca as diria a ninguém além de ti,

E muito menos a mim.”

Fernandos, Albertos e os Ventos

O que nos diz o vento
Não é um cochicho.
Nem é zumbido.
É o que corre
E bagunça os cabelos.
Vai e vem,
Sem justificativas,
Teses ou cultos.
E o que se ouve, é alto e claro:
 - És vento, e falarás do vento!