Carreira Solo

POR RALPH HOLZMANN

Diário da Diferença XXI: Humildade a favor da Justiça

Vibro acima do medo
Não deixo
Não posso
Temer o que é fraco
Sou luz
Sou força do amor
Agente do amor;
E o mal inferior do mundo
Não terá forças para me acometer
Agora, e para sempre,


Amém.




(poema-agradecimento-descarrego dedicado e agradecido à minha mãe-maga-enfermeira Malu Rocha e a meu amigo-leal-guia-espiritual Daniel D’anjo)


Diário da Diferença XX: Têmporas Pulsantes

I.
eu não preciso ser nada.
não procuro culpa
nem posse,
me espalho
feito fumaça etérea.
precipito-me feito 
cinzas conformadas.
não haverá
dobramento
capaz de me anular.
resistir
é faze-lo por sentir vontade
é querer fazer
viver
cheio de amor.

II.
o mar é uma força de dispersão
energias visíveis
as águas
viram ondas
quando aliam-se 
aos ventos. 
aos ecos
cruzados;
provocam-se
agitam-se
atiram-se
nas rochas;
perfuram
racham
e logo
dissolvem
areias.
desgastes
e reificações
contrariam-se 
rugindo no azul.
e mesmo entre
as cordas vo-
cais
vibráteis,
não ha
perfeita 
ausência
de frequência.
há sempre
mínimo caos 
dançante.

III.
não há veia
ou artéria
definitiva,
cujo sangue único
é sentença última
da vida.
não hei de sofrer
pelas meias furadas;
pelas costas tortas;
pelas palavras mortas;
pois sou ainda matéria viva
e vivo sempre serei.
não hei de temer 
encerramentos,
hei de temer caminhos
cerrados,
eternos becos-sem-saída.
farei da estrada 
irreparável
esburacada
torta
um jardim.
sementes que caem
trazidas no meu ombro
ou pelo vento.
eu,
o pólen,
as abelhas,
as flores,
só temos em comum
sermos
a onda que nasce, 
agiganta-se,
rebela-se,
afina-se,
e volta a ser mar.


marginal

fim do regime:
mergulho
revirado
desmedido,
desfuncionado
comovido.
fim da equação:
o que não cessa
de multiplicar
e dividir
uma hora
sobra.
fim dos fins do caminho:
não há final
que não escape
ao que vem
depois.
fim da melodia:
a última nota
envolve
todas
as peles.
começo da próxima esquina:
continuo sem saber
o porquê
de nada
ou de mim.

           ”Franny ouve uma emissão sobre lobos. Eu lhe digo: gostarias de ser um lobo? Resposta altiva — é idiota, não se pode ser um lobo, mas sempre oito ou dez lobos, seis ou sete lobos. Não seis ou sete lobos ao mesmo tempo, você, sozinho, mas um lobo entre outros, junto com cinco ou seis outros lobos. O que é importante no devir-lobo é a posição de massa e, primeiramente, a posição do próprio sujeito em relação à matilha, em relação à multiplicidade-lobo, a maneira de ele aí entrar ou não, a distância a que ele se mantém, a maneira que ele tem de ligar-se ou não à multiplicidade. Para atenuar a severidade de sua resposta, Franny conta um sonho: “Há o deserto.  Não teria ainda qualquer sentido dizer que eu estou no deserto. É uma visão panorâmica do deserto. Este deserto não é trágico nem desabitado, ele é deserto só por sua cor, ocre, e sua luz quente e sem sombra. Aí dentro uma multidão fervilhante, enxame de abelhas, confusão de jogadores de futebol ou grupo de tuaregues. Estou na borda desta multidão, na periferia; mas pertenço a ela, a ela estou ligado por uma extremidade de meu corpo, uma mão ou um pé. Sei que esta periferia é o meu único lugar possível, eu morreria se me deixasse levar ao centro da confusão, mas também, certamente, se eu abandonasse a multidão. Não é fácil conservar minha posição; na verdade é muito difícil mantê-la, porque estes seres não param de se mexer, seus movimentos são imprevisíveis e não correspondem a qualquer ritmo. Às vezes eles giram, às vezes vão em direção ao norte, depois, bruscamente, em direção ao leste e nenhum dos indivíduos que compõem a multidão permanece num mesmo lugar em relação aos outros. Conseqüentemente, encontro-me também permanentemente móvel; tudo isto exige uma grande tensão, mas me dá um sentimento de felicidade violenta, quase vertiginosa”. É um excelente sonho esquizofrênico. Estar inteiramente na multidão e ao mesmo tempo completamente fora, muito longe: borda, passeio à Virgínia Woolf (“nunca mais direi sou isto, sou aquilo”).”
                               

Gilles Deleuze/Félix Guatarri - Um só ou Vários Lobos? 

Diário da Diferença XIX: Sujeito à menos.

nós primeiro.
nas nossas redes,
nossas pestes verdes
importa, que para
que um nó
se amarre,
há de estar
amarrado
às linhas
de
outrosnós.
outros e nós,
que nos reconhecemos,
nos queremos
nós juntos.

Diário da Diferença XVIII: Visão Simbólica

o amor que entra pelos olhos já está marcado.
conforme degradamos, rompemos,
ligações químicas:
água é ar.
o amor que entra pelos olhos,
é escrutinizado,
de razões e porquês.
degradamos, rompemos,
em caixinhas simbólicas.
mérito dos funcionários.
recombinamos elementos,
e não os calores do corpo.
esses vem inteiros.
não há falta no que desliza
no corpo.
se pudermos,
nos deixarmos
decidirmos
por nós,
os organismos parasitas
morrerão de fome.

Diário da Diferença XVII: Encontro com as linhas de fuga.

I.

Se os caminhos,
fossem linhas retas,
nossas casas

  de    s
     vian
t
  es
nada seriam.
pontos de contato:
recém-informações
nascidas
formações
políticas.
Desejáveis
Desejantes.

II.

tem uma árvore
sem folhas
num vazio
entre os verdes.
não me parece essencial
dizer das raízes.
mas são belas:
folhas secas
se misturam
à terra, pisada.
rolam pro lago,
voam dançantes.
são cem mil homens
sob os meus pés.

III.

ainda assim,
gritam aos olhos:
os galhos secos,
torcidos,
incertos,
diários.
deitados,
como mãos estendidas,
derramam vida
por entre os dedos finos.
são galhos
marcados,
com cortes
abertos para
novas conexões.
novos braços, 
novos recursos

IV.

o piar
das mil aves
ao meu redor,
me abre um galho.
o olhar de um cachorro,
muda o sentido.
o emaranhar-se
com outros galhos,
me renova..
antes do crime,
da Lei, das Mães,
e dos Pais,
os caminhos da terra
abrigavam casas desviantes.



 


Diário da Diferença XVI: Considerações sobre a Revolução pelo Amor

O homem branco é um ser de privilégios. As ruas públicas são dele, e às ameaças, aos impropérios, não diz respeito. Não há perigos para o homem branco. Nós passamos incólumes. Passamos?

O homem branco fez vinho, pisando e esmagando as diferenças, emaranhando as cores num líquido preto de sangue quente; escravizou desejos, crianças, sonhos, horários, anos, exércitos. Pessoas. Sente o cheiro das uvas podres ao cheirar a taça de cristal.

Não à toa: o homem branco fabricou o ódio. Fomentou-se carrasco, em roupas de pompa, gola alta e promessas venenosas. Firmou acordos nulos, erigiu cidades cinzas, e o vinho do sangue alheio escorre de raiva, as unhas cravadas nas palmas das mãos. A mão fechada pesa. Hoje, os homens brancos somos muitos. Fabricado o ódio, agora há de se regulamentar: todos são iguais perante o direito à guerra. Homens brancos contra homens brancos lutam nos tribunais, e a quem não couber, os rios de sangue ainda podem escorrer.

Ainda assim, há um só homem branco: o modelo. Nas ruas públicas, privilegiados ou não, o ódio é o único bem comum. Bem de consumo comum. Apropriado pelos fuzis das batalhas diárias da rotina, ou pelas rosas no dia dos namorados. O ódio também fabricou o “homem branco”. Fez a “raça”; fez a “classe”; fez a “caça”. Nós nomeamos algozes. Com o tempo, nos confundimos entre os tiros.

Não, nós não estamos incólumes.

Ao mesmo tempo, produtos do ódio produzido, à nos todos ainda resta escutar.

Posso, como ente do mundo, escutar o vento golpeando minhas orelhas pelas janelas abertas. Posso dividir as laranjas que caem do pôr do sol. Ouvir os sorrisos, os bons-dias, os dramas, as tramas, as buzinas, e os braços abertos do rio. Se ouço, escuto: nossas paredes de ódio, nossos mundos de umbigo estão rachados. As estruturas estalam, grunhem. Há potência nos sons escondidos, há vida no que se pode sentir. Cairão os antigos à versos de pincel, sempre novos, sempre escapando. Cuidemos para não refazê-las.

Mas se rachadas estão, só estão pelo amor. Por quem quer que seja, os caminhos alternativos se abrem como curvas espontâneas, inesperadas. Não menos disputadas. Se há algo que nossas mãos sujas ainda podem disputar é a vontade de estar aqui de corpo inteiro. Pois voltemos a escutar:
Não privatizemos o amor.

Diario da Diferença XV – Um retorno às janelas do Repouso do Pajé

“São as mesmas árvores,
Outras, no en,
tanto
tempo passa
todo dia.”


Arrumamos a casa. Mudamos os móveis de lugar. As camas, a posição de nossas cabeças em relação ao Sol, à Lua, à luz do poste. Mudamos posturas, mudamos tons de voz, mudamos quartos, camas, lençóis, roupas, palavras, amores, namoros, ritos, almas, corpos, conversas,
Tem uma mesa na janela da sala.
Eu me sinto no meio do mundo. Suspenso no ar por três andares. Nós tomamos banho em quadrados empilhados. Meus pés em suas cabeças, teus pés na minha.
A árvore tem nuvens de cabelo. Do laranja, passam pro cinza. E arreganham-se ao navegarem, cheias de sentir sem sentido.
O verde das folhas é paralelo ao laranja do poste de luz. Estou cercado de postes laranjas e árvores verdes.
São muitos verdes. Uns pra cada hora do dia, outros pra cada arrepio do vento.
São tantos passos, chamados, chamadas-não-atendidas, bom dias, cafés tabagistas, pedidos, garrafas vazias, furadas, tragadas, chaves pela janela! Ouço todos, muito poucos, perco tantos, escondidos, censurados.
Tantos novos espaços, diálogos, carinhos, calores surgiram, tantos outros mudaram, sumiram, decepcionaram.
Há perdas no Paraíso, mas isso visto, o banheiro sujo é parte do que há de melhor. Amo-os todos, porcos imundos e imorais.
Anoitecem sempre sem máscaras, todos juntos. Os músculos da mandíbula relaxados, os olhos largados. Bronzeados.
Conforme escrevo, aparece a primeira estrela. Andorinhas deixam a árvore e somem.
Fogos de artifício quaisquer me despertam
Não há empates no ir das horas.
Esqueço se isso importa, e
corta.

anacronismos - ponto 1: mais claras risadas.

cenário:
uma hora, o apartamento
outra,
o corpo
turvo.
não preciso escapar.
há tudo de subversivo em
não esperar mais.
furtivos, trêmulos,
os dedos escapam.
as respirações são fortunas.
tornam o peso mais leve.
posso dançar a dois.
quero entrar,
e ouvir o eco,
de um tom novo.
um romper do mecânico
prático
uma rachadura

tente.
não sou temente
do amor.
não sou soldado,
nem tenente,
sou amante
da arte.
rebelde,
eu não esqueci:
as paredes molhadas,
não tem equação.