Carreira Solo

POR RALPH HOLZMANN

Talvezes Descabelos

Talvez eu já esteja cansado,
Talvez eu já esteja assustado
Demais.
Talvez eu só queira parar,
Talvez eu só queira escutar
O silêncio.
Talvez eu só precise das árvores,
Da terra molhada, das flores caídas.
Ou do vento.
Talvez eu só precise esquecer
Talvez eu só queira voltar
Uns meses.
Talvez eu precise de calma,
Talvez eu precise de tempo,
Talvez eu precise de cautela.
Pra poder ver que
Os pássaros migram,
O sol se põe,
E a lua 
Às vezes brilha
Junto com as nossas
Melancolias.
E que antes a vida era ainda
Um livro que eu lia,
Feita infância perdida.
Ou talvez tudo isso
Seja só o horário.

Diário da Diferença XXVII: Ininterruptor

Há sinais por todos os lados:
Balas na cabeça,
Reações em cadeia,
Estupros nas cadeias,
Condenados às cadeiras.
Não é a morte que anda
À espreita.
É o verme geral,
É a putrefação derradeira,
É a crise que já cansamos
De prever.
Melancolia do óbvio:
Crença ou raça
Pouco importam.
Todos os vivos
Ora ou outra
Se cansam.
Alio-me às flores.
Alio-me ao vento,
Ao mar,
Às cores da estação.
Pois elas antes de nós,
Com toda graça,
Leveza,
E profundidade
Se rebelam.

Diário da Diferença XXVI: Chuva é Sereno

Havia a mania da escrita
De olhar para fora
Pra fazer mover os dedos.
Podia muito bem entrar no ritmo
Da chuva,
Cantar as gotas tristes
Ou fazê-las molhadas de renovação.
Mas há muito a escrita
Não se dobra pra dentro.
Quando o faz,
A chuva importa
Pois chove.
Pois me lembra
Da Terra que roda,
Do Sol que me seca.
Da luz que me cega,
Da noite que passa.
Me encontro
Parte do todo.
Como força
Não da ressaca,
Mas da calma.
Da paz que se trocou
Pelas fobias do além.
Se sou um homem de bem,
Que me façam flor num jardim,
Me façam galho ou raiz,
Folha que invade a casa na madrugada.
Escuto os sussurros:
Bem vindo de volta.

Diário da Diferença XXV: A Vida escondida dos Telejornais

Nem todo carro é ambulância;
Nem toda missa é enterro.
Nem toda a tristeza é do homem,
E dos muitos que dormem,
Muitos ainda acordam.
E todo dia o Sol levanta a Luz.
Se por ventura
Some o armário organizado
É apenas porque diz-se apaixonado
Por mil posturas clínicas.
Mas é cínico
Quem diz que nada importa
Que tudo isso é
Natureza morta.
Que os jornais cheios de sangue
São a dura realidade
Essa, sozinha.
Triste e desmembrada.
Embriagada.
Mas se só há poesia na guerra,
Restaria só a amargura científica
Da desesperança e do desamor.
Mas tem-se fé,
Em quem se levanta com fé.
Terras férteis:
Nessas, surge
Através do tempo
Entre nós e Drummond
Uma flor.

Diário da Diferença XXIV: Padre Assustado no Confessionário das Anti-leis

A culpa não é minha
A face transfigurada
A arma constante apontada
O medo
Não é meu.
O que eu toco
É o que 
Eu
Toco.
E frágil é a sua tristeza
Lenta.
O que surge do canto
Amedrontador
São seus fantasmas.
Cobram impostos.
IMPOSTORES
Vampiros de minhas sensibilidades.
Sem postura.
Para que se afastem,
Para que se esqueçam
Assumo-me como 
Galho torto.
Nota fora da pauta.
Quebra de tempo.
E serei prova
Que tuas previsões agourentas
Cairão.

Diário da Diferença XXIII: Harmoniversos

Estradas, para além das curvas;
São territórios ladeados de barrancos.
Desbancado, rolei por uns tantos.
Agora, as curvas são outras.
São fixas, com seus
Encontros de sentido.
Aleatoriedades regidas;
Maestros harmônicos.
Há verdade em desfilar,
Desbarrancar.
E há verdade nos acidentes.
Para além de Justiça,
Pecado
Ou Perdão.
Não há razão em
Saber porquê.
Mas há vida 
Em sentir quando é.

Diário da Diferença XXII: Amor no Século-Fragmento

São propagandas,
De cores tantas,
Alianças foscas,
Casas prontas.
São perfumes quadrados,
De flores mesmas,
Desinfetantes
Lavandas.
Des-sentidos impressos
Mal estabelecidos,
Comprados.
Ícones, símbolos
Fotos de perfil.
Em meio a tantos
Olhos
perdidos pra dentro,
Me encontram os seus,
Pra frente.
Cheios de vida,
Vontade, desejo,
Espírito.
E me desterram
Do vazio sensível,
E da liquidez
estática.
E mesmo quando se despedem,
Me visitam com calor e luz
Em vez de ausência.

Diário da Diferença XXI: Humildade a favor da Justiça

Vibro acima do medo
Não deixo
Não posso
Temer o que é fraco
Sou luz
Sou força do amor
Agente do amor;
E o mal inferior do mundo
Não terá forças para me acometer
Agora, e para sempre,


Amém.




(poema-agradecimento-descarrego dedicado e agradecido à minha mãe-maga-enfermeira Malu Rocha e a meu amigo-leal-guia-espiritual Daniel D’anjo)


Diário da Diferença XX: Têmporas Pulsantes

I.
eu não preciso ser nada.
não procuro culpa
nem posse,
me espalho
feito fumaça etérea.
precipito-me feito 
cinzas conformadas.
não haverá
dobramento
capaz de me anular.
resistir
é faze-lo por sentir vontade
é querer fazer
viver
cheio de amor.

II.
o mar é uma força de dispersão
energias visíveis
as águas
viram ondas
quando aliam-se 
aos ventos. 
aos ecos
cruzados;
provocam-se
agitam-se
atiram-se
nas rochas;
perfuram
racham
e logo
dissolvem
areias.
desgastes
e reificações
contrariam-se 
rugindo no azul.
e mesmo entre
as cordas vo-
cais
vibráteis,
não ha
perfeita 
ausência
de frequência.
há sempre
mínimo caos 
dançante.

III.
não há veia
ou artéria
definitiva,
cujo sangue único
é sentença última
da vida.
não hei de sofrer
pelas meias furadas;
pelas costas tortas;
pelas palavras mortas;
pois sou ainda matéria viva
e vivo sempre serei.
não hei de temer 
encerramentos,
hei de temer caminhos
cerrados,
eternos becos-sem-saída.
farei da estrada 
irreparável
esburacada
torta
um jardim.
sementes que caem
trazidas no meu ombro
ou pelo vento.
eu,
o pólen,
as abelhas,
as flores,
só temos em comum
sermos
a onda que nasce, 
agiganta-se,
rebela-se,
afina-se,
e volta a ser mar.


marginal

fim do regime:
mergulho
revirado
desmedido,
desfuncionado
comovido.
fim da equação:
o que não cessa
de multiplicar
e dividir
uma hora
sobra.
fim dos fins do caminho:
não há final
que não escape
ao que vem
depois.
fim da melodia:
a última nota
envolve
todas
as peles.
começo da próxima esquina:
continuo sem saber
o porquê
de nada
ou de mim.