Carreira Solo

POR RALPH HOLZMANN

Carta ao Terror no Espelho

Mesmo que fosse irreparável o pavor no canto dos olhos, há sempre um agridoce no amargo. Danos. Agressivos ataques. Golpes cheios-de-graça.
Teus braços finos são insuportáveis.
Só parecem:
Cá estou, e suportei.
Já foram muitos dias
Muitas epifanias, histórias, filosofias que tua pele quebradiça evocou.
Que tua voz, apologia da dispersão, ensaiou diálogos obsessivos com as minhas dúvidas, tão materialmente concretas.
Que eu fosse o primeiro a poder falar além, descolar-me do corpo do instante:
Talvez nada falasse.
Já são tantas cores de tantos instantes evocados no meu sorriso.
Talvez eu esquecesse.
E é o medo de esquecer que retorna nas tuas rugas, no esganiçar que falha quando te exaltas.
Já envelheceste, tão jovem. Carregas no peito tanta fumaça que me pergunto: e o fogo, quando apaga?
Náufrago aparente, hoje muito mais um remador afobado. O que afunda quem naturalmente navega é a excessiva dúvida sobre como ir em frente.
Mas mesmo quando me agarra pelas canelas, implorando pequenas verdades, tragando-me cada vez mais pra um dentro, (questionando intrusivamente: já é fora ou é meramente errado?), é este medo que me lembra: mesmo aqui, em desespero, teu rosto trágico ora ou outra some frente ao calor que ainda não cessou. E daquilo que parece tão cinza brotam flores em cabelos, fios de histórias tão antigas, renovadas por carinhos inéditos. Músicas dissolvendo fantasmas de baixo teor alcoólico. A inevitabilidade do que não se sabe só pode ser bela, do contrário, sofre pelas razões inventadas. E aí de onde outrora adoeci, posso dançar alguns minutos de descanso experimental.
Cicatrizes ou não;
Da Morte eu retorno, todos os dias, garantido da Vida.

Imaginação & Memória

I.
“Quantas mudas de roupa?”
Viajo e não conto os pares.
Meias-viagens,
Saias rodopiam no meu
Guarda-roupa.
Dançam sem corpo
Preciso,
São cores novas no asfalto.
Não falto.
Sou sorriso completo
Sem dente ou razão.
Há medicina na dor de minhas cáries.
II.
Memorarmário:
Tons quentes abrem
Buracos negros
Reversos.
Vomitam imagens e histórias
De  um verão distante.
Mudas num jardim:
Perfume de lírio,
Doces delírios.
Crescem, morrem
Poetizam o mesmo caminho
De um passante amargurado.
III.
Nos dias de mar
A lua e a espuma
Despontam de maré
Qualquer.
Meu peito nu se envaidece
Ele, a nuvem, a água gélida.
Um só.
Da sublimação deste amor
A ponta de meus dedos
Ainda guarda mais
Que este verso.
IV.
À despedida,
Uma criança.
Juvenil escuta;
Dois sussuros:
Que não se esqueça de ser criança;
E que não há vôo,
Passarinho
Despido de malícia atenta.
Tristeza é depósito da sorte:
Quanto mais vivo, mais vivido.
Pretérito cíclico,
Recém-nascido antigo.
V.
Pé-de-areia:
Me descalço de gravidade
Para ouvir o agudo
Do teu último adeus.

Desumanidades Maquínicas Subterrâneas

I.
Feito partícula,
Sujeito das atrações,
Sujeito às dispersões
Solto no espaço,
Tempo
Agitado
Vou chocando.
II.
Cada olhar é faísca.
Me surpreendo:
Desconfio de cada um que se demora.
Insensibilidade paranoica
é moderna
Sensatez.
III.
Os trens passam de pouco em pouco.
Inabaláveis bandeirantes
Dos caminhos de sempre.
Uns choram o peso dos dias;
Rugem os freios;
E sacodem a angústia dos anos,
Barulhentos.
Outros deslizam,
Impassíveis.
Alinhados ao esfriamento que carregam.
IV.
Histórias somem no empurra-empurra.
(Portas abertas: contagem regressiva)
Se esbarram na pressa,
Se confundem:
Falas atravessadas
Se calam na sobriedade da manhã;
Compartilham todas do mesmo fio:
O ir e vir que as comporta;
Reconhecimento de agulha
(Portas se fechando).
V.
Nos semblantes,
Ora a tristeza lúcida;
Ora a alegria distraída;
Reconhecem todos o passar das estações.
Os contos da rotina reaparecem fracionados:
Num vagão, viram nuvens.
Acúmulos de partículas agitadas,
Carregadas
Pesadas.
Participo:
Os encontros serão enérgicos
Choques são sempre energéticos.
Descarregos, fluxos unilaterais.
Urram os escudos:
Meu-caminho-a-ser-seguido.
Mal se escutam chorando.
Tempestivo é o cinza da mobilidade urbana.

Melodia das Gotas

I.
Quantos dedos
Tamborilaram
Minha pele?
Atrito na superfície:
Busca pelo eco interno.
É surdo.
Meu ritmo é crônico,
Nada agudo.
II.
Estalo:
Compreender é marcar.
Não te assustes com o movimento
Há tudo de brusco
E tudo de leve
No olhar.
III.
Escuta:
Silêncio só no vácuo.
Feito código partido
Dupliquemos,
Refaçamos.
IV.
A crise das multidões
Não destoa
Dos fanáticos
Da revolução.
Bandeira fincada;
Solo fértil comum:
Angústia.
Frente ao que passa,
Observo o que dança,
Sapateio esperança:
Não entendo como a chuva
Faz par à melancolia,
Mas é alegre que eu a sinta.
(Por insignificante desígnio:
Matéria prima da poesia.)
V.
Banho me de lua ao meio-dia,
Espero o Sol na madrugada.
O dia é cheio,
Preenchido, completo.
Compreende mesmo
O Satélite.
Mas se é tudo anoitecer,
Descanso.
O cair da Luz exige respeito.
Respeitar é dar risada:
A ausência de rimas
Nunca perde a graça.

A Última Inflexão do Artista

I.
Eu sobrevivi por vinte anos esperando o pior.
Risco de Fogo,
Alta Tensão.
Consumidor dos meus mapas.
Tempestade anunciada
Ainda não veio.
Não por divino privilégio
Mas porque o pior, em verdade
Não é assim tão corriqueiro.
II.
Isto está em cada passagem:
A mesma luz que faz a sombra das árvores
Faz a minha.
Nas calçadas,
Somos todos
Ou não és nenhum.
III.
Coração-marca-passo,
Feito metrônomo:
Martelo rítmico
Perene.
Meus olhos sacodem,
Meus ossos estalam.
Ando feito sinfonia.
E onde há sinal
Sintonia.
IV.
Pintar é cuidar das frequências.
Na tela escura,
Cada golpe de sentido
É um sorriso.
V.
Confundo-me:
Se me estendes a mão,
Escorre o mundo entre seus dedos
de outono.
As folhas despontam seus galhos de sangue.
Mas e se fizestes como a lua laranja,
E chamastes mais atenção que as estrelas?
Seria ainda a noite?
Seria fenômeno: luar?
Ou seria ainda
tinta de outra estrofe?
VI.
Escolho materiais,
Minhas mãos são meus pincéis.
Palavrargila:
Nada é oculto;
Criar é massagear densidades.
Basta olhar pra cima:
Há uma imensidão de pontos pra desenhar as linhas.

Com versos com posições decorpóreas.

Todas as vozes somem,
Se escutadas todas
Ao mesmo tempo.
Contudo,
Sabem bem
Também,
Que não se escutam apenas ruídos.
Mesmo confusos,
Estabelecem verdades,
Tons e trejeitos.
Surgem diálogos
Dos meus zumbidos.
Rodas
Dentro de rodas,
Histórias vivas e mortas.
Uma hora,
Poesia,
Outrora,
Uma lágrima.
Algumas rolam cheias de passado,
Outras, presentes.
Desentranhadas.
Tentam me explicar,
Meio tímidas:
Ainda não entendi muito bem como cheguei aqui.

Talvezes Descabelos

Talvez eu já esteja cansado,
Talvez eu já esteja assustado
Demais.
Talvez eu só queira parar,
Talvez eu só queira escutar
O silêncio.
Talvez eu só precise das árvores,
Da terra molhada, das flores caídas.
Ou do vento.
Talvez eu só precise esquecer
Talvez eu só queira voltar
Uns meses.
Talvez eu precise de calma,
Talvez eu precise de tempo,
Talvez eu precise de cautela.
Pra poder ver que
Os pássaros migram,
O sol se põe,
E a lua 
Às vezes brilha
Junto com as nossas
Melancolias.
E que antes a vida era ainda
Um livro que eu lia,
Feita infância perdida.
Ou talvez tudo isso
Seja só o horário.

Diário da Diferença XXVII: Ininterruptor

Há sinais por todos os lados:
Balas na cabeça,
Reações em cadeia,
Estupros nas cadeias,
Condenados às cadeiras.
Não é a morte que anda
À espreita.
É o verme geral,
É a putrefação derradeira,
É a crise que já cansamos
De prever.
Melancolia do óbvio:
Crença ou raça
Pouco importam.
Todos os vivos
Ora ou outra
Se cansam.
Alio-me às flores.
Alio-me ao vento,
Ao mar,
Às cores da estação.
Pois elas antes de nós,
Com toda graça,
Leveza,
E profundidade
Se rebelam.

Diário da Diferença XXVI: Chuva é Sereno

Havia a mania da escrita
De olhar para fora
Pra fazer mover os dedos.
Podia muito bem entrar no ritmo
Da chuva,
Cantar as gotas tristes
Ou fazê-las molhadas de renovação.
Mas há muito a escrita
Não se dobra pra dentro.
Quando o faz,
A chuva importa
Pois chove.
Pois me lembra
Da Terra que roda,
Do Sol que me seca.
Da luz que me cega,
Da noite que passa.
Me encontro
Parte do todo.
Como força
Não da ressaca,
Mas da calma.
Da paz que se trocou
Pelas fobias do além.
Se sou um homem de bem,
Que me façam flor num jardim,
Me façam galho ou raiz,
Folha que invade a casa na madrugada.
Escuto os sussurros:
Bem vindo de volta.

Diário da Diferença XXV: A Vida escondida dos Telejornais

Nem todo carro é ambulância;
Nem toda missa é enterro.
Nem toda a tristeza é do homem,
E dos muitos que dormem,
Muitos ainda acordam.
E todo dia o Sol levanta a Luz.
Se por ventura
Some o armário organizado
É apenas porque diz-se apaixonado
Por mil posturas clínicas.
Mas é cínico
Quem diz que nada importa
Que tudo isso é
Natureza morta.
Que os jornais cheios de sangue
São a dura realidade
Essa, sozinha.
Triste e desmembrada.
Embriagada.
Mas se só há poesia na guerra,
Restaria só a amargura científica
Da desesperança e do desamor.
Mas tem-se fé,
Em quem se levanta com fé.
Terras férteis:
Nessas, surge
Através do tempo
Entre nós e Drummond
Uma flor.