Carreira Solo

POR RALPH HOLZMANN

A Última Inflexão do Artista

I.
Eu sobrevivi por vinte anos esperando o pior.
Risco de Fogo,
Alta Tensão.
Consumidor dos meus mapas.
Tempestade anunciada
Ainda não veio.
Não por divino privilégio
Mas porque o pior, em verdade
Não é assim tão corriqueiro.
II.
Isto está em cada passagem:
A mesma luz que faz a sombra das árvores
Faz a minha.
Nas calçadas,
Somos todos
Ou não és nenhum.
III.
Coração-marca-passo,
Feito metrônomo:
Martelo rítmico
Perene.
Meus olhos sacodem,
Meus ossos estalam.
Ando feito sinfonia.
E onde há sinal
Sintonia.
IV.
Pintar é cuidar das frequências.
Na tela escura,
Cada golpe de sentido
É um sorriso.
V.
Confundo-me:
Se me estendes a mão,
Escorre o mundo entre seus dedos
de outono.
As folhas despontam seus galhos de sangue.
Mas e se fizestes como a lua laranja,
E chamastes mais atenção que as estrelas?
Seria ainda a noite?
Seria fenômeno: luar?
Ou seria ainda
tinta de outra estrofe?
VI.
Escolho materiais,
Minhas mãos são meus pincéis.
Palavrargila:
Nada é oculto;
Criar é massagear densidades.
Basta olhar pra cima:
Há uma imensidão de pontos pra desenhar as linhas.

Com versos com posições decorpóreas.

Todas as vozes somem,
Se escutadas todas
Ao mesmo tempo.
Contudo,
Sabem bem
Também,
Que não se escutam apenas ruídos.
Mesmo confusos,
Estabelecem verdades,
Tons e trejeitos.
Surgem diálogos
Dos meus zumbidos.
Rodas
Dentro de rodas,
Histórias vivas e mortas.
Uma hora,
Poesia,
Outrora,
Uma lágrima.
Algumas rolam cheias de passado,
Outras, presentes.
Desentranhadas.
Tentam me explicar,
Meio tímidas:
Ainda não entendi muito bem como cheguei aqui.

Talvezes Descabelos

Talvez eu já esteja cansado,
Talvez eu já esteja assustado
Demais.
Talvez eu só queira parar,
Talvez eu só queira escutar
O silêncio.
Talvez eu só precise das árvores,
Da terra molhada, das flores caídas.
Ou do vento.
Talvez eu só precise esquecer
Talvez eu só queira voltar
Uns meses.
Talvez eu precise de calma,
Talvez eu precise de tempo,
Talvez eu precise de cautela.
Pra poder ver que
Os pássaros migram,
O sol se põe,
E a lua 
Às vezes brilha
Junto com as nossas
Melancolias.
E que antes a vida era ainda
Um livro que eu lia,
Feita infância perdida.
Ou talvez tudo isso
Seja só o horário.

Diário da Diferença XXVII: Ininterruptor

Há sinais por todos os lados:
Balas na cabeça,
Reações em cadeia,
Estupros nas cadeias,
Condenados às cadeiras.
Não é a morte que anda
À espreita.
É o verme geral,
É a putrefação derradeira,
É a crise que já cansamos
De prever.
Melancolia do óbvio:
Crença ou raça
Pouco importam.
Todos os vivos
Ora ou outra
Se cansam.
Alio-me às flores.
Alio-me ao vento,
Ao mar,
Às cores da estação.
Pois elas antes de nós,
Com toda graça,
Leveza,
E profundidade
Se rebelam.

Diário da Diferença XXVI: Chuva é Sereno

Havia a mania da escrita
De olhar para fora
Pra fazer mover os dedos.
Podia muito bem entrar no ritmo
Da chuva,
Cantar as gotas tristes
Ou fazê-las molhadas de renovação.
Mas há muito a escrita
Não se dobra pra dentro.
Quando o faz,
A chuva importa
Pois chove.
Pois me lembra
Da Terra que roda,
Do Sol que me seca.
Da luz que me cega,
Da noite que passa.
Me encontro
Parte do todo.
Como força
Não da ressaca,
Mas da calma.
Da paz que se trocou
Pelas fobias do além.
Se sou um homem de bem,
Que me façam flor num jardim,
Me façam galho ou raiz,
Folha que invade a casa na madrugada.
Escuto os sussurros:
Bem vindo de volta.

Diário da Diferença XXV: A Vida escondida dos Telejornais

Nem todo carro é ambulância;
Nem toda missa é enterro.
Nem toda a tristeza é do homem,
E dos muitos que dormem,
Muitos ainda acordam.
E todo dia o Sol levanta a Luz.
Se por ventura
Some o armário organizado
É apenas porque diz-se apaixonado
Por mil posturas clínicas.
Mas é cínico
Quem diz que nada importa
Que tudo isso é
Natureza morta.
Que os jornais cheios de sangue
São a dura realidade
Essa, sozinha.
Triste e desmembrada.
Embriagada.
Mas se só há poesia na guerra,
Restaria só a amargura científica
Da desesperança e do desamor.
Mas tem-se fé,
Em quem se levanta com fé.
Terras férteis:
Nessas, surge
Através do tempo
Entre nós e Drummond
Uma flor.

Diário da Diferença XXIV: Padre Assustado no Confessionário das Anti-leis

A culpa não é minha
A face transfigurada
A arma constante apontada
O medo
Não é meu.
O que eu toco
É o que 
Eu
Toco.
E frágil é a sua tristeza
Lenta.
O que surge do canto
Amedrontador
São seus fantasmas.
Cobram impostos.
IMPOSTORES
Vampiros de minhas sensibilidades.
Sem postura.
Para que se afastem,
Para que se esqueçam
Assumo-me como 
Galho torto.
Nota fora da pauta.
Quebra de tempo.
E serei prova
Que tuas previsões agourentas
Cairão.

Diário da Diferença XXIII: Harmoniversos

Estradas, para além das curvas;
São territórios ladeados de barrancos.
Desbancado, rolei por uns tantos.
Agora, as curvas são outras.
São fixas, com seus
Encontros de sentido.
Aleatoriedades regidas;
Maestros harmônicos.
Há verdade em desfilar,
Desbarrancar.
E há verdade nos acidentes.
Para além de Justiça,
Pecado
Ou Perdão.
Não há razão em
Saber porquê.
Mas há vida 
Em sentir quando é.

Diário da Diferença XXII: Amor no Século-Fragmento

São propagandas,
De cores tantas,
Alianças foscas,
Casas prontas.
São perfumes quadrados,
De flores mesmas,
Desinfetantes
Lavandas.
Des-sentidos impressos
Mal estabelecidos,
Comprados.
Ícones, símbolos
Fotos de perfil.
Em meio a tantos
Olhos
perdidos pra dentro,
Me encontram os seus,
Pra frente.
Cheios de vida,
Vontade, desejo,
Espírito.
E me desterram
Do vazio sensível,
E da liquidez
estática.
E mesmo quando se despedem,
Me visitam com calor e luz
Em vez de ausência.

Diário da Diferença XXI: Humildade a favor da Justiça

Vibro acima do medo
Não deixo
Não posso
Temer o que é fraco
Sou luz
Sou força do amor
Agente do amor;
E o mal inferior do mundo
Não terá forças para me acometer
Agora, e para sempre,


Amém.




(poema-agradecimento-descarrego dedicado e agradecido à minha mãe-maga-enfermeira Malu Rocha e a meu amigo-leal-guia-espiritual Daniel D’anjo)